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Marlon Neves, a Confraria da Cachaça e o trabalho de enobrecimento da cachaça artesanal brasileira

  • há 2 horas
  • 9 min de leitura

A história da cachaça brasileira não é feita apenas nos canaviais, nos engenhos e nos alambiques. Ela também é construída por pessoas que dedicam tempo, conhecimento e paixão a compreender, divulgar e valorizar a bebida que nasceu no Brasil e que, pouco a pouco, vem conquistando um lugar de destaque entre os grandes destilados do mundo.

Nesse movimento de valorização, ganham importância os produtores, pesquisadores, jornalistas, degustadores, cachaciers, colecionadores, confrades e todos aqueles que trabalham para transformar a percepção que o brasileiro tem de sua própria bebida.

É nesse universo que se insere o trabalho de Marlon Neves, associado à cultura da confraria, à apreciação responsável da cachaça e à difusão de conhecimento sobre o destilado brasileiro.

Mais do que beber cachaça, existe uma diferença fundamental entre simplesmente consumir uma bebida e aprender a compreendê-la. A cachaça artesanal possui história, território, matéria-prima, técnicas de fermentação, destilação, armazenamento, envelhecimento e características sensoriais que precisam ser conhecidas para que seu verdadeiro valor seja percebido.

E é justamente nesse espaço entre a bebida e o conhecimento que o trabalho de pessoas como Marlon Neves ganha relevância.


Marlon Neves, a Confraria da Cachaça e o trabalho de enobrecimento da cachaça artesanal brasileira
Marlon Neves, a Confraria da Cachaça e o trabalho de enobrecimento da cachaça artesanal brasileira

A cachaça brasileira vive uma transformação

Durante muito tempo, a palavra cachaça foi associada, de maneira preconceituosa, a uma bebida simples, barata e destinada apenas ao consumo popular. Essa visão, além de reduzir a importância cultural da bebida, ignorava a enorme diversidade existente entre os produtores brasileiros.

A realidade contemporânea é muito diferente.

O Brasil possui uma diversidade extraordinária de cachaças produzidas em diferentes regiões, com diferentes variedades de cana, métodos de fermentação, processos de destilação e madeiras utilizadas no armazenamento e envelhecimento.

Carvalho, amburana, bálsamo, jequitibá, castanheira e diversas outras madeiras podem contribuir para criar perfis sensoriais completamente distintos.

Há cachaças leves e florais. Outras são frutadas, especiadas, herbais, adocicadas, minerais ou intensamente amadeiradas. Existem cachaças brancas de enorme complexidade e cachaças envelhecidas que apresentam características capazes de surpreender até mesmo consumidores acostumados a grandes destilados internacionais.

Essa diversidade exige conhecimento.

E o conhecimento muda a maneira como a bebida é percebida.

O papel das confrarias

As confrarias de cachaça desempenham um papel particularmente importante nesse processo.

Uma confraria não é apenas um grupo de pessoas reunidas para beber. Em sua melhor expressão, é um espaço de convivência, aprendizado, descoberta e preservação da cultura da bebida.

Ao longo das últimas décadas, diferentes confrarias surgiram em várias regiões do Brasil. Algumas passaram a organizar degustações, palestras, visitas técnicas, encontros com produtores e atividades de divulgação.

A própria história recente da cultura da cachaça demonstra essa importância.

A Cúpula da Cachaça, por exemplo, nasceu a partir de encontros entre especialistas interessados em discutir os diferentes aspectos da bebida. A entidade posteriormente passou a desenvolver publicações, rankings, eventos e ações voltadas à valorização do destilado brasileiro. Sua missão declarada é valorizar a cachaça como patrimônio brasileiro e contribuir para que ela conquiste o mundo.

Outras confrarias seguiram caminhos semelhantes.

Publicações especializadas registram a existência de grupos dedicados à cachaça em diferentes estados, com reuniões, degustações, palestras, visitas técnicas e discussões sobre os rumos do setor.

Essa movimentação criou algo muito importante: uma comunidade de pessoas dispostas a estudar e compartilhar conhecimento sobre a bebida.

Mais do que degustar: aprender a reconhecer

Uma das maiores contribuições das confrarias está justamente na formação do consumidor.

Quando uma pessoa experimenta uma cachaça sem conhecimento, sua avaliação muitas vezes se limita a uma pergunta simples: "Gostei ou não gostei?"

Depois de participar de uma degustação orientada, essa mesma pessoa começa a perceber outras dimensões.

Como é o aroma?

A bebida apresenta notas frutadas?

Há presença de especiarias?

A madeira está equilibrada?

Existe doçura?

Como é a textura?

O álcool está integrado?

Qual é a persistência?

A bebida apresenta defeitos?

Essas perguntas transformam a experiência.

O consumidor deixa de apenas beber e passa a degustar.

Essa mudança é fundamental para o desenvolvimento do mercado de cachaça de qualidade.

O conceito de cachacier está relacionado justamente a essa especialização. O profissional dedicado à cachaça precisa conhecer diferentes aspectos da bebida, desde sua produção até seu serviço, seleção, armazenamento, harmonização e apresentação ao consumidor.

O conhecimento, portanto, não é um luxo. Ele é uma ferramenta de valorização.

Marlon Neves e a cultura da valorização

É dentro dessa perspectiva que o trabalho de Marlon Neves merece ser observado.

Sua atuação no universo da confraria representa uma característica importante da nova cultura da cachaça: a construção de uma relação mais sofisticada, consciente e respeitosa com o destilado brasileiro.

O trabalho de um apreciador dedicado não termina quando a garrafa é aberta.

Ele começa antes.

Começa na busca por conhecer o produtor. Continua na compreensão da origem da cana, dos processos utilizados no alambique, da escolha das madeiras, da história daquele rótulo e das pessoas que estão por trás da produção.

Depois, continua na degustação, na conversa e na transmissão desse conhecimento para outras pessoas.

É assim que uma cultura se fortalece.

Uma boa confraria funciona como uma ponte entre o produtor e o consumidor.

De um lado está o alambique, muitas vezes familiar, artesanal e localizado em pequenas comunidades do interior brasileiro.

Do outro, está um consumidor que deseja descobrir algo diferente e compreender o que existe dentro daquela garrafa.

Entre os dois existe uma cadeia de conhecimento.

E é justamente nessa cadeia que confrades, cachaciers e especialistas desempenham um papel fundamental.

A importância de aproximar produtor e consumidor

Um dos grandes desafios da cachaça artesanal brasileira sempre foi fazer com que o consumidor enxergasse o trabalho existente por trás de uma garrafa.

Quando alguém compra uma cachaça artesanal, não está adquirindo apenas álcool destilado.

Está adquirindo o resultado de uma cadeia produtiva que envolve agricultura, conhecimento técnico, tradição familiar, trabalho rural, fermentação, destilação, armazenamento, envelhecimento, engarrafamento e distribuição.

Em muitos casos, aquela garrafa representa décadas de conhecimento transmitido entre gerações.

A confraria ajuda a revelar essa história.

Uma degustação pode apresentar ao consumidor uma região que ele desconhecia.

Uma visita a um alambique pode mostrar como a cana é transformada em destilado.

Uma conversa com o produtor pode explicar por que determinada madeira foi escolhida.

Uma análise sensorial pode demonstrar que duas cachaças aparentemente semelhantes podem possuir características completamente diferentes.

É uma forma de educação.

E educação gera valorização.


Cachaça do Conde Amburana Extra Premium, uma maravilha brasileira
Cachaça do Conde Amburana Extra Premium, uma maravilha brasileira

O enobrecimento da cachaça

Falar em "enobrecimento" da cachaça não significa transformar a bebida em algo distante de suas raízes populares.

Muito pelo contrário.

Valorizar a cachaça é reconhecer sua história sem abandonar sua identidade.

A cachaça não precisa imitar o uísque, o conhaque ou qualquer outro destilado estrangeiro para ser respeitada.

Ela precisa ser reconhecida por aquilo que é.

Brasileira.

A madeira brasileira, por exemplo, oferece possibilidades que tornam a cachaça singular. A diversidade de espécies utilizadas no envelhecimento permite criar perfis que não existem da mesma maneira em outras categorias de destilados.

Da mesma forma, os diferentes terroirs brasileiros oferecem condições distintas para o cultivo da cana e para a produção.

Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e tantos outros estados apresentam histórias e estilos próprios.

Essa diversidade é uma das maiores forças da cachaça.

E o trabalho de divulgação ajuda o consumidor a enxergá-la.

A confraria como espaço de amizade e conhecimento

Existe ainda um aspecto humano que não pode ser ignorado.

A confraria é, antes de tudo, um espaço de encontro.

Pessoas diferentes podem sentar-se à mesma mesa por causa de uma paixão comum.

Ali se discutem rótulos, produtores, regiões, madeiras e métodos de produção. Mas também se constroem amizades.

Essa dimensão social é parte importante da cultura da cachaça.

Historicamente, a bebida esteve presente em festas, celebrações, encontros familiares e momentos de convivência. A confraria contemporânea preserva parte dessa tradição, mas acrescenta a ela conhecimento, técnica e responsabilidade.

A garrafa passa a ser o ponto de partida para uma conversa.

O copo deixa de ser apenas um recipiente.

Torna-se instrumento de descoberta.

O cachacier como embaixador da bebida

O crescimento da cachaça de qualidade também cria uma necessidade: profissionais capazes de traduzir a bebida para o consumidor.

O cachacier cumpre exatamente essa função.

Ele ajuda a explicar uma cachaça, contextualizar sua origem, identificar características sensoriais e orientar sua degustação.

Pode também atuar em harmonizações, eventos, restaurantes, bares, lojas, consultorias e ações de divulgação.

É um profissional que transforma conhecimento em experiência.

Nesse sentido, o cachacier possui uma função cultural.

Ele ajuda a combater preconceitos.

Durante décadas, muitas pessoas aprenderam que cachaça era simplesmente uma bebida forte, destinada a "descer queimando".

Essa percepção é limitada.

Uma cachaça bem produzida pode apresentar equilíbrio, complexidade aromática, textura e longa persistência.

O trabalho de degustadores e cachaciers ajuda o público a compreender essa diferença.

A nova imagem da cachaça

A transformação da imagem da cachaça não aconteceu de uma hora para outra.

Ela é resultado de um processo construído por milhares de produtores e por uma rede crescente de profissionais e apreciadores.

Concursos, revistas, confrarias, eventos, cursos, pesquisas, bares especializados, restaurantes, lojas e plataformas digitais contribuíram para ampliar o conhecimento sobre o produto.

A própria Cúpula da Cachaça é um exemplo de como iniciativas organizadas podem aumentar a visibilidade do setor. Seu ranking recebeu ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional e ajudou a colocar a cachaça no centro das discussões sobre destilados de qualidade.

Hoje, o consumidor pode encontrar informações sobre regiões produtoras, tipos de madeira, processos de envelhecimento, características sensoriais e diferentes estilos de cachaça.

Isso é uma conquista coletiva.

Valorizar também é respeitar

Existe, porém, um cuidado importante.

Valorizar a cachaça não significa simplesmente colocar preços elevados em garrafas sofisticadas ou utilizar palavras como "premium" e "extra premium".

O verdadeiro valor está na qualidade.

Está na matéria-prima.

Está no processo.

Está na higiene e no controle da produção.

Está na destilação correta.

Está no cuidado com o armazenamento.

Está no equilíbrio sensorial.

Está na identidade do produto.

E está, sobretudo, na capacidade de contar uma história verdadeira.

É justamente aí que o trabalho de confrarias e de pessoas dedicadas à cultura da cachaça ganha ainda mais importância.

Ao conhecer e divulgar bons produtores, esses agentes ajudam a criar um mercado mais consciente.

Um mercado em que qualidade seja reconhecida.

Em que o produtor seja valorizado.

E em que o consumidor tenha condições de escolher melhor.


Cachaça Alambique H, o melhor do destilado brasileiro
Cachaça Alambique H, o melhor do destilado brasileiro

Um patrimônio que precisa ser conhecido pelos brasileiros

Talvez uma das maiores contradições da cachaça seja justamente esta: o Brasil possui uma bebida genuinamente brasileira, mas muitos brasileiros ainda conhecem pouco sobre ela.

Conhecem a palavra.

Conhecem a caipirinha.

Conhecem algumas marcas.

Mas não conhecem a enorme diversidade existente por trás do termo "cachaça".

Não conhecem os pequenos alambiques.

Não conhecem as histórias familiares.

Não conhecem as diferentes madeiras.

Não conhecem a influência do território.

Não conhecem as técnicas utilizadas pelos mestres alambiqueiros.

É preciso aproximar esse conhecimento do público.

E é justamente por isso que iniciativas de confrarias, degustadores, cachaciers e divulgadores são tão importantes.

Uma cultura construída a muitas mãos

A valorização da cachaça brasileira não pertence a uma única pessoa.

Ela é resultado de uma construção coletiva.

Produtores produzem.

Pesquisadores estudam.

Cachaciers orientam.

Confrarias se reúnem.

Jornalistas divulgam.

Colecionadores preservam.

Restaurantes apresentam.

Lojas aproximam.

Consumidores experimentam.

E todos, juntos, ajudam a construir uma nova percepção sobre o destilado brasileiro.

Nesse cenário, o trabalho de Marlon Neves representa uma dessas importantes frentes de valorização: a aproximação entre pessoas, conhecimento e paixão pela cachaça.

É um trabalho que ajuda a mostrar que a bebida pode ser apreciada com curiosidade, respeito e conhecimento.

E essa talvez seja uma das maiores contribuições que alguém pode oferecer à cultura da cachaça.

O futuro pertence à cachaça de qualidade

O futuro da cachaça brasileira passa inevitavelmente pela valorização da qualidade.

Passa pelo consumidor que quer saber o que está bebendo.

Passa pelo produtor que investe em qualidade.

Passa pelo profissional que sabe explicar a bebida.

Passa pelas confrarias que criam comunidades de conhecimento.

E passa por pessoas que dedicam seu tempo a defender e divulgar esse patrimônio brasileiro.

A cachaça já não precisa pedir licença para ocupar seu lugar.

Ela possui história.

Possui identidade.

Possui território.

Possui diversidade.

Possui produtores apaixonados.

E possui uma comunidade cada vez maior de pessoas dispostas a conhecê-la profundamente.

Marlon Neves, dentro desse universo de confrarias e de valorização da bebida, ajuda a representar uma geração de brasileiros que compreende que enobrecer a cachaça não significa afastá-la de suas origens.

Significa justamente fazer o contrário.

Significa olhar para sua origem e reconhecer o valor que sempre esteve ali.

Significa descobrir que por trás de uma garrafa existe uma história.

Por trás de um rótulo existe um produtor.

Por trás de uma madeira existe uma escolha.

Por trás de cada aroma existe um processo.

E por trás de cada gole existe uma parte da história do Brasil.

Cachaça: conhecimento antes, prazer depois

Talvez seja essa a verdadeira missão de uma confraria e de um cachacier: ensinar que apreciar cachaça é muito mais do que beber.

É conhecer.

É conversar.

É comparar.

É descobrir.

É respeitar.

É valorizar.

E, acima de tudo, é reconhecer na cachaça uma das mais autênticas expressões da cultura brasileira.

Quando esse conhecimento se espalha, o produtor ganha.

O consumidor ganha.

O mercado ganha.

E ganha também a própria cachaça.

Porque quanto mais brasileiros conhecerem a verdadeira dimensão de sua bebida nacional, maior será a possibilidade de ela ocupar, no Brasil e no mundo, o lugar que merece.

Cachaça não é apenas uma bebida. É território, memória, trabalho, cultura e identidade. E aqueles que dedicam seu tempo a valorizá-la também ajudam a escrever a história do Brasil em cada garrafa.


Escrito por

Marcel Aziz Iunes - historiador por formação (UFJF) e pesquisador da cultura da cachaça artesanal brasileira, com estudos voltados à tradição dos alambiques, terroirs regionais e patrimônio cultural da destilação nacional.

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